Blog do Conto
 

 Estrangeiro

 

 Umberto Krenak

 

 O fio serpeia

 Milagre

 Entre montanhas

 Vermelhas

 

 Nas margens sangrentas

 Crianças brincam

 Mulheres lavam

 Histórias

 

 Aragem leve

 Inferno

 Roupas coladas

 Ecos de cascos

 

 Passo

 Congelo a cena

 Olhos barrentos

 Interrogam

 

 Estrangeiro

 Não me vejo

 Nos olhos

 de estio

 



Escrito por Krenak às 21h47
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Mudrá (o balé das mãos)

 

Umberto Krenak

 

E bailam as mãos

Entre panos

Deslizam

Nos dorsos

Revolvem cabelos

Desenham no espaço

Figuras sem nexo

 

Depois que explodem

Os corpos

Em gritos de gozo

Contraem

Expandem

Despencam

E exaustas

se deixam ficar

Entrelaçadas.

 



Escrito por Krenak às 21h42
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PEDRO NAVA E O TEXTO  (II) 

 

Como exemplo de utilização de uma ficha, escolhemos um excerto do citado livro, página 17:

 

“ Numa passagem em que descreve o corpo humano, Pedro Nava deixa claro o entrecruzamento dos diferentes níveis de linguagem. Isso pode ser já observado na ficha preparada para descrever a passagem. Essa ficha (reproduzida tal como o autor a deixou), identificada com o número 13, traz as seguintes anotações:

 

Cinerradiografia

O enchimento do estômago e a passagem do esôfago como uma queda de lava ou movimentos reptilianos.

A angiografia no escuro como uma corrida mineral (fita de ferro) numa volta redonda.

O clister opaco como cogumelos atômicos, com cumulus nimbus.

O coração contrastado como une poulpe no fundo do mar latejando como medreporica e levantando a tromba da aorta.

 A divisão arboriforme da broncografia.

 

O texto, na íntegra, assim se apresenta:

 

Naquelas instalações, pela mão do Flávio, penetrei no mundo lunar e submarino das radiografias e radioscopias. Estas me davam a impressão de que a luz astral e poderosa penetrava o compacto do corpo humano, iluminando-o daqueles clarescuros que eu ia aprendendo a ler. Que prodígio! Ver o que tão mal captávamos percutindo e auscultando. Ver o tamanho, a forma da aorta com sua crossa e de todo o pedículo vascular que paraboliza coração acima e afora! Ou a artéria magna era como uma anêmona presa ao diafragma-fundo do mar e fechando e abrindo à impulsão das águas-sangue-oceano. Ver um gole opaco descer e desenhar o invisível esôfago como uma queda de lava! Os clisteres intransponíveis aos raios Roentgen mostrando as alças da tripa como cúmulus-cogumelos que os atômicos imitariam na forma! Ver concretizar-se de repente uma árvore delicada e construída como as mangueiras as cajazeiras jaqueiras jambeiros tamarindeiros dos meus sonhos nos recreios do Pedro II – nas broncografias. Aquilo era mais uma visão do corpo humano, senão na sua permanente beleza, ao menos no seu permanente prodígio...(p.356).

 

Bem, isto foi só um exemplo, mas para quem se interessa em bisbilhotar o processo criativo de um autor genial, vale a pena conferir.



Escrito por Krenak às 21h17
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PEDRO NAVA E O TEXTO (I)

 

O escritor Pedro Nava (Juiz de Fora, 1903 – Rio de Janeiro,1984) era realmente um fenômeno. Homem de notável cultura, conviveu com os modernistas em Minas nos anos vinte do século homônimo. Depois, dedicou-se com afinco à profissão de médico. Em 1972, já aos 69 anos de idade, iniciou a carreira de escritor, agitando o mercado editorial brasileiro quando da publicação do seu primeiro livro de memórias, “Baú de Ossos”, a partir do qual seguiram-se outros cinco, todos marcados pelo estilo inconfundível, a erudição, as descrições e narrativas vívidas, deixando a nítida impressão de terem sido anotadas dia-a-dia por toda a vida do autor.

Sua obra memorialística, na verdade, começou a ser escrita em 1968 e foi doada por ele próprio à Fundação Casa de Rui Barbosa. Lá estão arquivados os 6 volumes originais: “Baú de Ossos”, “Balão Cativo”, “Chão de Ferro”, “Beira-mar”, “Galo-das-trevas”, “O círio perfeito”, todos publicados entre 1972 e 1983. Quando se suicidou, trabalhava em seu sétimo livro “Cera das Almas”.

O livro “Pedro Nava e  a construção do texto”, dos autores Edina Panichi e Miguel L. Contani, uma publicação conjunta da Eduel e Ateliê editorial, de 2003, almeja dissecar o processo da criação de Nava que, após o quarto livro de memórias – Beira-Mar – arquivou todo o material utilizado na produção de seus trabalhos.

Esta obra foi resultado de um trabalho acadêmico em parte inspirado pela chamada crítica genética, que busca desvelar a criação através do escrutínio de seus bastidores: os rascunhos, as re-escritas, os borrões, as inserções, as supressões, as idas e vindas do escritor em busca da melhor frase, da melhor estrutura, do texto limpo.

O estudo do material utilizado para “Beira-Mar” comprovou que o ato de escrever não está sujeito apenas aos caprichos da imaginação, mas também depende de minuciosa pesquisa. O processo criativo de Nava dava-se em três etapas: a primeira constituída de fichas em que ele fazia anotações fortuitas, folhas soltas, recortes de jornal, reproduções de obras artísticas, cartões postais de Belo Horizonte (lugar onde, apesar do nome, passa-se o referido livro). Tudo que lhe interessava, ele guardava metodicamente, fichando para posterior utilização. Algumas fichas são verdadeiras tempestades cerebrais; outras são resultado de minuciosa pesquisa.

A segunda fase, por ele denominada “boneco” era constituída de roteiros dos capítulos a serem escritos, mapas, questionários enviados aos colegas de geração e recortes de artigos sobre as personagens a serem retratadas. Muitas vezes as fichas são o substrato para a construção dos ditos “bonecos” (outras vezes as fichas entram diretamente na composição do texto final).

A terceira fase era o datiloscrito, utilizando uma folha dupla de papel almaço, dobrando-a ao meio, datilografando na esquerda e deixando a metade direita em branco, o que serviria para posteriores correções e acréscimos. O espaçamento era duplo, o que dava um aspecto mais organizado ao rascunho. (continua)

 



Escrito por Krenak às 21h16
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AS CAMADAS DO TEXTO

 

Desde que travei contato (um contato de leigo procurando entender literatura) com a Análise do Discurso, penso em toda narrativa como uma estrutura em casca de cebola, na qual vários níveis se envelopam. Existe todo um corpo teórico que envolve os estudiosos dessa disciplina, que não é tão simples quanto aparenta. O que me chamou a atenção, na verdade, é uma observação:

Haveria um nível fundamental, onde se inscreve o conflito, que é a alma da história. Este é o combustível que impele o leitor até o final. Ele estabelece um foco que não pode ser perdido nunca, sob pena de a história degringolar. Isto é muito patente no conto, onde as tramas paralelas só devem existir para satisfazer à principal.

Envolvendo esse nível fundamental, teríamos um nível narrativo, no qual se vislumbra a história de maneira sucinta, através dos fatos relevantes. Aqui  acontecem as coisas, os conteúdos se transformam. Visualizo esta camada como um diagrama cheio de setas. O nível narrativo serviria ao fundamental e deveria tê-lo como fulcro.

Já na terceira camada, a mais externa, encontraríamos o nível discursivo - aquilo que se lê no papel ou na tela; instância onde entram em ação os conhecimentos de gramática e o estilo do autor, dando forma ao produto final.

Todas as três camadas são importantes: tanto a escolha do tema, como a história, bem como a maneira de contá-la.

Podemos dizer que este é um modo de ver a criação como um projeto: primeiro escolhe-se o material (tema), depois monta-se o arcabouço (história) e por fim preenchem-se os vãos, dando o acabamento definitivo (texto).

Devemos nos lembrar, no entanto, que este é um ponto de vista da análise, portanto da desconstrução do texto. O analista parte do nível fenomênico (o que se vê) , procurando chegar ao fundamental (que não se vê). Já o processo de criação, que deveria fazer o percurso inverso, não obedece a esta ordem necessariamente.

É sabido que grande parte dos autores não estruturam suas narrativas como um projeto. Alguns dizem não pensar muito, simplesmente vão escrevendo; outros imaginam o início e o final, mais nada.

Quando se quer começar a escrever, no entanto, este é um método que pode ajudar.

Voltaremos a tocar no assunto nas próximas mensagens.



Escrito por Krenak às 23h23
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O CONTO É ANTIGO

O conto é quase tão antigo quanto o homem. Tendo evoluído a partir das narrativas orais, persiste através dos tempos e hoje está mais vivo do que nunca. Mas o que é que nos fascina nessas narrativas curtas, algumas vezes muito curtas? Podemos nos mirar nos mestres como Borges, Cortázar, Tchecov, Hemingway, Faulkner, Maupassant, Poe, Scott Fitzgerald, Guimarães Rosa, Clarice, Lygia... Qual a mistura nos textos destes escritores que os faz diferentes, será a estrutura? a maneira de conduzir a história, o timing? os temas? Pode ser que nos espelhando neles também melhoremos nossos escritos. Veja bem: pode ser. É tentando decifrar os mecanismos do conto a partir de obras significativas, enfatizando o processo de criação literária que criei o Blog do Conto. Se esta iniciativa servirá de algo para mim ou quem quer que seja, só o tempo dirá.



Escrito por Krenak às 21h42
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