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Revelação
Umberto Krenak
- Antes de sermos dor, somos cavalo. Descemos do imponderável em assimétricos tropéis e fustigamos a humanidade com os cravos pontiagudos de nossos cascos. Por vezes, aramos a matéria viva, fatiando as carnes. Outras, percorremos as viscosas trilhas da alma, onde, para nos movermos, é preciso ancorar mais fundo as aparas que nos sustentam. No diálogo que substancia a vida, somos indesejáveis, destruidores como o fogo, deixando em nosso rastro paisagens devastadas, plasma e sangue brotando das superfícies. No entanto, damos sentido ao que se segue, prenunciando o reverso, sulcando os campos para um novo tempo - justificava-se a dor, metamorfoseada em alazão, as longas crinas tremulando ao vento.
- Mas não te solicitei - diz a alma transparente, sob os escuros cascos - a minha busca não te inclui. No zazen aspiro ao nada absoluto; pensando alcançá-lo, no entanto, tu me apareces, e me feres com teus pregos...
- É por ti mesmo que venho, para distinguir-te do outro - os lábios eqüinos se abrem num semi-sorriso irônico - Não há como evitar-me; estamos presas, amalgamadas, e se sou é porque precisas que assim seja.
- Ah, inevitável dor da existência, só agora compreendo - retruca a alma, alcançando a suprema sabedoria, tremendo, avultando-se, envolvendo a dor, solidificando e se desfazendo numa explosão de diamantes.
Escrito por Krenak às 22h28
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