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Plantão de Carnaval (parte I)
Umberto Krenak
Meia-noite, segunda feira de carnaval. Chamado à Fivela de Prata, uma
vila na periferia da cidade, foi difícil chegar ao barraco sem reboco ou
pintura, em nada diferente dos demais. Junto à porta semi-cerrada, pessoas se espremiam pelo beco estreito, formando pequenos grumos separados por poças da chuva que caía fina. Empurrei a porta e fui envolvido pelo cheiro ácido, que impregnava o ambiente.
Lá dentro, dois policiais.
- Algum suspeito, Marco? - perguntei a um dos detetives, chegado meu.
- Ainda não.
- Ela morava só?
- Com a filha de 9 anos.
- A menina...?
- Está com a avó - apontou com o indicador - três casas adiante.
- Tem o perfil da vítima?.
- Mulher trabalhadora, nenhuma inimizade aparente, sem relacionamento com o tráfico.
Sobre o corpo coberto de furos, uma fantasia de lantejoulas verdes
baratas. Ao lado do sapato dourado de salto partido, um adereço de cabeça espicaçado, manchado de sangue.
- Estava saindo para a festa - murmurei baixinho.
- Sim - emendou Marco. - Ouviram gritos, mas as pessoas aqui têm medo.
Quando os vizinhos chegaram, ela já estava morta. Depois encontraram a filha sob o sofá.
- A menina viu alguma coisa?
- Viu os pés. Pés de homem.
- Nenhuma conversa?
- Nada. A mãe ia deixá-la na casa da avó; quando ouviu as batidas na
porta e a escondeu.
- A menina...- solfejei entre dentes.
- O que foi, chefe?
- Quero vê-la! ( continua)
Escrito por Krenak às 15h51
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