Blog do Conto
 

Ponto Cego

 

Umberto Krenak

 

Para onde olhasse era apenas o mar, azul e infinito. O sol derramava calor, espalhando um cheiro forte de sal e peixe. Estava só na nave destroçada; custaria a pisar a desde sempre amada terra.

 

Olhou para trás e viu os bandos de gaivotas; lembrou-se dos amigos tragados pela fúria das tormentas. Poseidon tornava-se mais cruel a cada ciclo.

 

Sobrevivera ainda uma vez, mas já não era senão um espectro do homem de outrora – a barba branca caindo até o peito; mãos enrugadas, a pele grossa, castigada pela lida.

 

Foi preciso que uma onda mais ousada sacudisse a nau para dar-se conta do momento: aproximavam-se as rochas do estreito; podia vislumbrar as longas madeixas tremulando na distância como estandartes ao vento. Sabia do perigo que corria, porque já o revivera tantas vezes quantas são as voltas do tempo em seu cíclico movimento.

 

Sempre houvera companheiros a atá-lo ao mastro. Mas agora estava só. As correntes ficariam frouxas. Restava-lhe tapar os ouvidos com cera, como antes recusara. Mas como deixar de provar do canto, a divina e trágica melodia?

 

Diferente dos outros homens, lembrava-se de tudo. Homens normalmente esquecem e revivem a existência como se fosse a única. Ele não! Nem ele nem os outros personagens desta história, contada e recontada por gerações.

 

Tornaram-se prisioneiros da memória.

 

Sabia o que fazer; sabia de cor todos os passos. Mas hoje faria diferente. Ouviria a doce música mais uma vez. Ainda que fosse a última!

 

Apanhou um pedaço de fazenda, dobrou-o e vendou os olhos; agarrou a corrente sobre o convés e amarrou-se como pode ao mastro combalido.

 

Um ponto cego no mar absoluto.

 

Singrava já a nave as águas mansas do canal. O cheiro de peixe arrefeceu e a luminosidade amainou; o vento trazia agora o perfume suave das flores mediterrâneas, e ele pensou ouvir um vocalise ao longe, agudo como um lamento.

 

Distinguia o deslizar macio sobre as águas cálidas, o burburinho surdo das ondas, chocando-se contra o casco da barcaça; mas quem lamentava era apenas o vento, sussurrando sílabas imperfeitas entre as fendas das pedras, compondo uma canção incompleta nos vãos das rochas.

 

Apurou os sentidos tentando discernir as conhecidas notas carregadas de promessas, mas não logrou nada.

 

Quando caiu em si a luz novamente penetrava forte pela trama do tecido. Destapou os olhos. Atravessara o estreito e não ouvira o canto sedutor. Mas como, se ele vira as cabeleiras serpeando ao longe, as silhuetas esguias, dorsos e seios à contraluz?

 

Caminhou até a popa e pôde vê-las, ainda próximas, mulheres-pássaros com suas longas melenas acobreadas reluzindo sobre as pedras. Rodeadas de carcaças, olhavam-no fixamente, mas suas bocas não se moviam.

 



Escrito por Krenak às 21h40
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