Blog do Conto
 

NA CASA AMARELA

 

Autor:Umberto Krenak

 

 

- Mais alto, mais alto, bradava ela aos quatro ventos com um sotaque horroroso, a letra "ele" pronunciada com a ponta da língua no céu da boca.

 

Eu tentava, mas era difícil levantar os braços além da horizontal. Ela puxava e dóiam-me as costas, refletindo nas pontas dos dedos. Será que se achava tão nova assim? Já devia ter passado dos cinqüenta. Imagino que trabalhar aqui deveria ser-lhe um tormento: todos os dias antevia o seu próprio futuro. E não muito distante!

 

A sessão de fisioterapia finalmente acabara e a profissional juntava seus aparelhos apressadamente.

 

- A senhora tem um sotaque diferente...esse seu "ele", de onde vem? - perguntei, dissimulada.

 

- Minha mãe era nortista e, apesar de eu ter nascido aqui, assimilei por influência de casa. E gosto! É um modo de manter minhas raízes.

 

"As raízes estão bem fincadas!" – sorri cá comigo.

 

A fisioterapeuta saiu do quarto e quase trombou com Marilza, a enfermeira, que entrava com uma toalha e uma escova de cabelos.

 

- Fifi, você está linda hoje – exclamou a enfermeira numa frase padrão.

 

Eu detestava aquele apelido, mas ali todos tinham. Além do mais, já me acostumara àquele tratamento, um misto de carinho e desconsideração.

 

Sendo velho, para as pessoas seu passado não importa muito. O presente, sim. Futuro não há.

 

- Pare de falar mentira, Marilza. Você sabe muito bem que eu não estou caducando ainda. O que você quer?

 

- A senhora me ajuda a escrever uma poesia pro Genival?

 

- Sabia que tinha alguma pra mim. Eu ando meio esquecida. Esquecida – repeti, e enfatizei: - Não caduca! Acho que não vou poder ajudá-la – disse, fingindo desolamento. Tenta a dona Gertrudes.

 

- Deus me livre daquela alemoa mal encarada. Falta bater na gente.

 

Marilza caminhou até minha cama e pegou-me pelo braço: - Vamos ficar cheirosinha, bonitinha. Já pro banheiro!

 

continua...

 



Escrito por Krenak às 13h50
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NA CASA AMARELA

 

Autor:Umberto Krenak

 

continuação

 

Logo em seguida desmanchou-se num sorriso, que era só dentes: - Depois a senhora me ajuda com a poesia?

 

- Tá bom, mas não me chama de Fifi!

 

- Combinado, Fifi, digo, Dona Efigênia.

 

Não gosto deste lugar. Estou esperando a hora da partida. Mas não fico incomodando a Deus diariamente, pedindo que me leve. Que seja feita a Sua vontade.

 

Banho tomado, penteada, marchei para a copa.

 

- Haaaaaaaaaaaaaaaa ! – só vi quando a cara amassada de Dona Eulália passou como um cometa, quase me derrubando. Ela vivia pregando susto nos outros. Parecia divertir-se a valer com aquilo. Agora lá estava ela, com a língua amarela pra fora da boca desdentada, desafiando-me.

 

Tentando escapar, quase escorrego num tapete de retalhos. Por sorte, estávamos no corredor e me encostei na parede.

 

- Lalá, Lalá, você não toma jeito mesmo... disse a enfermeira, puxando a dona Eulália pro seu quarto. Enquanto era quase arrastada a contragosto, dona Eulália gritava para mim "Feiosa, feiosa", como um papagaio ensandecido.

 

O pior é que eu não achava que ela mentia.

 

- Tudo bem, Fifi?

 

- Tudo bem, mas não me chame de Fifi, por favor!

 

- É um jeito carinhoso, Dona Efigênia.

 

- Eu sei, mas eu prefiro o meu nome - falei firme, dando a entender que ainda tinha dignidade. Difícil é convencer as pessoas de nossa dignidade quando dependemos dos outros pra tanta coisa.

 

Felizmente a mesa estava vazia. Sentei-me no meio, perto da cesta de pães. Do outro lado, a alemoa, mastigando.

 

- Bom dia, Dona Gertrudes.

 

- Bom dia – respondeu mecanicamente, sem tirar os olhos do pedaço de pão na sua mão direita.

 

- Ainda bem que parou a invernada. Eu já estava começando a mofar – arrisquei.

 

- Eu já estou mofada.

 

Aquilo foi como um balde de água fria. Ela tinha amanhecido de ovo virado. Melhor seria tomar o meu café e voltar à cama pra um cochilo.

 



Escrito por Krenak às 13h50
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Pelas Mãos

Umberto Krenak

De suas mãos saíam as coisas mais bonitas: uma concha, uma flor, rústicos cristais transparentes. Saíam mesmo pequenos animais, que se espalhavam pela casa e era preciso doar quando viravam muitos.

Ninguém sabe de onde viera, mas chegara na fazenda havia muito tempo, antes mesmo que meu pai tivesse nascido. Sem passado nem parentes, foi adotada por minha avó e tornou-se membro da família. Minha tia Zita. Seus olhos amendoados, ligeiramente estrábicos, em contínuo movimento, pareciam pertencer a outro mundo. E quando menos esperávamos vinha nos presentear com algo. Não sei como fazia. Ninguém sabia. As coisas simplesmente surgiam da superfície de seu corpo e todos ficavam maravilhados.

Eu e meus primos éramos crianças especiais porque tínhamos uma tia mágica, que nos tratava com carinho e cobria de presentes.

Porém veio um dia em que tudo mudou: logo após completar noventa anos, minha avó morreu subitamente. Tia Zita, muito apegada à velha, foi ficando triste, cada dia mais triste. Alimentava-se pouco, quase não sorria. Surgiu-lhe uma ferida na coxa que acabou por deixá-la acamada. Eu e meu pai íamos visitá-la todo fim de tarde, mas ela já não se comunicava. Apenas bordava e bordava, oficio que aprendera com antigas empregadas da fazenda em seu tempo de mocinha. Nesse instante suas mãos eram como pequenos pássaros construtores, os delicados dedos desembaraçando fios multicoloridos, ajeitando o tecido e esticando-o no bastidor. E na superfície lisa da cambraia, ponto-cruz, ponto-cheio, ponto-atrás, ponto-areia, em combinações diversas, iam dando forma a figuras abstratas profundamente angustiantes, geometricamente distorcidas, cheias de arestas, de vazios, com aspecto inacabado.

Ela estava definhando a olhos vistos e, por mais que tentássemos, não conseguíamos fazer nada. Até que um dia chamaram meu pai com urgência e eu fui com ele. Maria, a dama de companhia esperava ao portão com as mãos na cabeça “Ela estava aí ainda agorinha, Seu Silvério. Como pode ter sumido assim? Não entrou ninguém...” No quarto um aroma adocicado impregnava o ambiente. A cama ligeiramente desarrumada; o retrato de minha avó em cima do criado-mudo; chinelos emparelhados sobre o tapete; o oratório e seus santos. Tudo estava como antes. Só ela não estava lá.

Nunca mais tivemos noticias dela.

Eu fiquei triste, mas não muito, pois sabia que ela sumira simplesmente porque cansada de bordar o tempo todo, deu-se asas de presente e voou para o céu.

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Escrito por Krenak às 06h59
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