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NA CASA AMARELA
Autor:Umberto Krenak
continuação
Logo em seguida desmanchou-se num sorriso, que era só dentes: - Depois a senhora me ajuda com a poesia?
- Tá bom, mas não me chama de Fifi!
- Combinado, Fifi, digo, Dona Efigênia.
Não gosto deste lugar. Estou esperando a hora da partida. Mas não fico incomodando a Deus diariamente, pedindo que me leve. Que seja feita a Sua vontade.
Banho tomado, penteada, marchei para a copa.
- Haaaaaaaaaaaaaaaa ! – só vi quando a cara amassada de Dona Eulália passou como um cometa, quase me derrubando. Ela vivia pregando susto nos outros. Parecia divertir-se a valer com aquilo. Agora lá estava ela, com a língua amarela pra fora da boca desdentada, desafiando-me.
Tentando escapar, quase escorrego num tapete de retalhos. Por sorte, estávamos no corredor e me encostei na parede.
- Lalá, Lalá, você não toma jeito mesmo... disse a enfermeira, puxando a dona Eulália pro seu quarto. Enquanto era quase arrastada a contragosto, dona Eulália gritava para mim "Feiosa, feiosa", como um papagaio ensandecido.
O pior é que eu não achava que ela mentia.
- Tudo bem, Fifi?
- Tudo bem, mas não me chame de Fifi, por favor!
- É um jeito carinhoso, Dona Efigênia.
- Eu sei, mas eu prefiro o meu nome - falei firme, dando a entender que ainda tinha dignidade. Difícil é convencer as pessoas de nossa dignidade quando dependemos dos outros pra tanta coisa.
Felizmente a mesa estava vazia. Sentei-me no meio, perto da cesta de pães. Do outro lado, a alemoa, mastigando.
- Bom dia, Dona Gertrudes.
- Bom dia – respondeu mecanicamente, sem tirar os olhos do pedaço de pão na sua mão direita.
- Ainda bem que parou a invernada. Eu já estava começando a mofar – arrisquei.
- Eu já estou mofada.
Aquilo foi como um balde de água fria. Ela tinha amanhecido de ovo virado. Melhor seria tomar o meu café e voltar à cama pra um cochilo.
Escrito por Krenak às 13h50
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