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Marte
Umberto Krenak
O Mars Explorer, catamaran de luxo, desliza sobre as águas pacíficas do lago Eriel, cortando a superfície brilhante e calma, deixando atrás de si o rastro azul dos propulsores impresso nas ondas divergentes, uma incomensurável cortina que nunca se fecha. Dentro dele, passageiros de todas as classes vieram em busca do prazer carnal, banido da Terra há séculos e preservado apenas no planeta vermelho.
Jasie é um hermafrodita e ainda não conheceu tais formas de prazer. O deleite sensorial pelo toque das mãos ou neurotransmissores compartilhados não lhe bastam. Ele quer o contato dos corpos e sabe por ouvir de muitos o que se faz na colônia marciana, uma zona marginal.
A barcaça é ampla e há homens e mulheres desejáveis, alguns dos quais chamaram sua atenção. No entanto, ele sabe que sob as máscaras biológicas que conservam jovens as feições, milhares de rostos se escondem, apodrecidos pelo tempo. Jasie quase pode vê-los. Estremece.
O vento passa em lufadas fortes. Jasie toca a pele lisa dos braços. O passageiro ao lado é um tipo viril. Ele não. É quase feminino, o terceiro sexo — mira os dedos longos e delicados, a ausência de pelos, mamas quase secretas. Quantas vezes quis não ser uma interrogação, uma incógnita mesmo para si próprio. Quando o sexo se dilata, ele se revolve em sentimentos ambivalentes, às vezes é sensibilidade, às vezes puro animal.
A velocidade da barca diminui e o píer se aproxima. O alto-falante anuncia a chegada. Ele já sabe o procedimento. Desembarca e passa por um corredor de indivíduos, homens e mulheres de biotipos variados. Basta escolher. Há tantos, são todos exemplares puros. Uma loura alta, de olhos violeta, chama a sua atenção. Ele lhe estende a mão. Ela segura firme e o conduz através de um longo corredor até um pequeno quarto.
Não dizem palavra, caminham de mãos dadas, conhecem o protocolo. O quarto é pequeno e pouco iluminado - uma mesa, um guarda roupa, uma cama de casal. A mulher se despe e deita-se. Jasie espera pacientemente enquanto ela crava as longas unhas na pele e rasga a parede abdominal, deixando expostas as vísceras brilhantea. Com os dedos, arranca do fígado um cordão gelatinoso e o introduz no umbigo de Jasie, cujo corpo ondula e dobra para diante, enrolando sobre si mesmo. A loura rola para o lado, põe a massa de carne dentro do ventre e restaura os planos superficiais com um curativo instantâneo. Jasie sente a pele fechar-se às suas costas. Está quente. Ela se injeta com a primeira sensação. Dali em diante serão doze dias vivendo de memórias.
Escrito por Krenak às 16h57
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A Casa
Umberto Krenak
Da velha casa que nunca conhecera sobraram escassas pilastras unidas por hiatos de grama e entulho. Um cheiro de história impregnava as ruínas e, de certo modo, me amedrontava, forjando um universo onde real e imaginário conviviam, entrelaçados de maneira indiscernível. No íntimo, algo me dizia que fugisse. Prossegui, todavia, caminhando em meio a restos de paredes tombadas, entranhas expostas - grumos de barro preenchendo os vãos entre as hastes de madeira.
Do lugar onde estava, eu via a planta em toda sua extensão; com a imaginação a preenchi. Então pude destacar a altiva fachada estampando a data da construção “1846”; a pesada porta de entrada, cabiúna negra trabalhada com motivos árabes. Acima de minha cabeça, a sacada azul de treliça projetava-se sobre a escadaria rústica de pedras.
Olhei em volta buscando coisas que ouvira de bocas familiares: o engenho, o caminho de seixos que conduzia ao rio, a pequena mata ainda virgem repleta de mistérios... Não restara nada! No entorno, somente ruínas e pastagens para o gado magro e esparso. E o vento de antigas histórias? Estendi o braço. Nem acima, nem abaixo de mim. Agora não havia. No firmamento, apenas o sol como uma inconseqüente tocha, o mesmo sol da criação, o sol que iluminara meus antepassados e ainda iluminará quantos?
Entrei. O ruído surdo de meus passos ressoou no piso de madeira. Lá dentro, coisas dispostas como desde sempre: mesa, cadeiras de altos espaldares, uma grande arca repleta de cristais da Boêmia e porcelana chinesa. Sem pressa, perscrutei outros cômodos: pareceram-me embalsamados: quartos com suas minúsculas camas antigas, de feitios retos; as colchas de renda, brancas e engomadas. Quis deixar-me ali sobre uma delas, dormir o sono eterno que me ofereciam, o sono de várias gerações antes de mim. Mas percebi que não podia tocá-las, sob pena de fazê-las evanescer. Retrocedi. No fim do longo corredor, a escada conduzia ao andar de cima. Hesitei ante a estrutura compacta de madeira. Não obstante, meus pés avançaram sobre os degraus e logo vi-me em um grande salão ladeado por quatro portas azuis. No teto, uma pintura barroca retratando as falanges celestiais, a eterna luta do bem contra o mal. Caminhei até o balcão e apreciei a mata estendendo-se além do riacho, o fragor dos macacos no fim de tarde e o vento em lufadas fortes, colando minha roupa à pele suarenta.
De repente, algo se despegou do teto, e caiu em movimentos lentos e oscilantes, quase me roçando a face. Carregada pelo vento, uma folha de papel se debatia aprisionada entre os ramos de uma roseira. Precipitei-me escada abaixo, atravessei os vários aposentos e cheguei à porta. No exterior, novamente sol e ruínas. Caminhei apressadamente até onde segundos antes havia rosas, abaixei-me; do barro, desenterrei um fragmento de página amarelada, cuja extremidade sobressaía entre restos de madeira. Esfreguei-a com as mãos: “Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que assunto de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudará o universo mas eu não, pensei com melancólica vaidade...” Borges. Eu o sabia por haver lido tantas vezes.
Súbito, uma dor me invadiu o peito, como um punhal lançado à distância. Arqueado sobre o ventre, mal enxergava um palmo além de mim. Espremi a folha entre os dedos e ela me cortou como uma esponja de espinhos. Larguei-a. Minha mão sangrava. Olhei em volta e estavam todos ali. Todos os fantasmas antigos. Fitando-me com olhos piedosos. Embora não os conhecesse, sabia que eram meus. Com gestos amigáveis, disseram-me que entrasse. E eu os acompanhei.
Escrito por Krenak às 00h22
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