Blog do Conto
 

METAMORFOSE

 

Umberto Krenak

 

Foi num dia comum que observei pela primeira vez a planta que teimava em nascer entre os pedregulhos no quintal. Passado o tempo, tornou-se viçosa goiabeira de caule resistente e galhos elásticos, com miríades de folhas cheias de nervuras, que enchiam de som o caramanchão onde plantávamos nossas cadeiras nas noites de vento mínimo. Os primeiros frutos, de casca grossa e polpa vermelha, tinham sabor indescritível. Virou uma atração aquela árvore frondosa - as crianças se deliciavam, os adultos se encantavam; tornou-se parte da família, dava sombra, alimento, descanso para os olhos fatigados.

 

Recordo-me bem quando vieram pela primeira vez. No primeiro dia foram apenas as bolotas negras que, pela manhã, cobriam o solo sob a galharia. Bem depois é que as pude distinguir: mimetizadas, eram milhares, e devoravam as folhas com enganosa avidez, arrastando-se pelos galhos, amontoando-se em novelos assimétricos. Em menos de duas semanas consumiram todas a folhagem e, sob o sol tremendo, na árvore nua, penduravam-se pela extremidade e ficavam assim estendidas, à maneira de enfeites de natal, por horas; depois caíam.

 

Em seguida se puseram a devorar a grama, a horta, as laranjeiras, as flores, a parreira. Contratei um agrônomo que prescreveu remédio - não adiantou. Depois invadiram a casa e começaram a dividir conosco a geladeira, as camas, os armários. Vez por outra, tantas eram, que esmagávamos alguma, e o rastro verde se espalhava pelo chão. Quando tomaram o guarda-roupa, decidimos nos mudar. Foi então que viemos para cá, para esta cidade distante, no alto da montanha.

 

A casa, não conseguimos vender. As larvas se espalharam por todo o terreno, preencheram as frestas das paredes, os recessos entre as pedras, as tubulações. Com o tempo, ocuparam toda a cidade, tornaram-se um problema de saúde pública, e as pessoas foram obrigadas a abandonar seus lares.

 

Quando partiu  o último habitante, contaram-nos, começou a eclosão de borboletas: verdes, azuis, amarelas, prateadas, castanhas, douradas, negras, nacaradas...A exuberante festa multicor chamou a atenção do governo, que terminou por transformar a localidade abandonada no mais novo parque estadual: o Arco-Íris.

 



Escrito por Krenak às 20h46
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