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Eleanor Rigby
Umberto Krenak
O arroz se espalha pela igreja como gotas de chuva fina. Iluminado pela luz do gerador, brilha timidamente sobre os bancos, pelo chão, nos vãos da tabeiras de ardósia. Na primeira fila, como é de costume depois de um casamento, pastor Mckenzie, sentado, cirze suas meias, e ali ficará por certo até de manhã, quando os moradores da cidade o verão arrastando a perna atrofiada até sua morada, atrás do templo. É uma mania essa coisa de passar a noite na igreja, mas os fiéis aceitam a esquisitice do velho do mesmo modo como aceitam as coisas da natureza. Ninguém ousa contrariar o missionário, turrão como um touro bravo. Todos se perguntam, na verdade, por que é que ele faz tanta questão de que o templo pernoite cheio de grãos depois dos raros casamentos na pequena cidade, cujo cemitério é mais populoso que as ruas. “Triste, papai, me incomoda toda esta gente triste” – o velho esboça um sorriso, repassando as palavras da filha, quando na janela, observando o ir e vir dos trabalhadores solitários das minas numa época em que ainda havia carvão naquela terra esquecida por Deus.
A cabeça balança sobre a barba branca; mãos caídas sobre o colo deixam as meias penderem sobre a borda do assento. Mckenzie acorda entre um cochilo e outro; o ranger da fechadura direciona seu olhar para o vulto de mulher que entra pela porta dos fundos e caminha na direção do púlpito. Ela parece não vê-lo; percorre a passarela central, abaixa-se e começa a catar o arroz espalhado, depositando-o cuidadosamente na barra do vestido. O pastor a observa ternamente, com olhos rasos. Um papel amarfanhado surge entre os dedos que procuram. Ele parece ler silenciosamente. Agora, tendo visto tantas vezes, ainda duvida se isso é real ou não passa de um produto da imaginação. Prefere não tentar descobrir. Ainda que fique com o corpo moído no dia seguinte. É como equilibrar cristais que, ao menor descuido, se estilhaçariam. Baixa novamente os olhos ao sermão que escreveu para o casamento da filha, um casamento que nunca aconteceu.
Este é também um ritual de culpa. E de saudade. A mortificação pela educação rigorosa demais, pelas proibições demais, castigos demais. O fato é que Eleanor envelheceu. E morreu muito cedo: sozinha, na igreja, num fim de tarde de inverno. E, se naquele sábado fatídico, em que ele saiu do cemitério com as mãos sujas de terra, as pessoas ainda perguntavam por ela, hoje ninguém mais se lembra. Só ele não esquece.
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Amanheceu. A luz imprime os vitrais sobre o chão, formando mosaicos coloridos. Mckenzie acorda incomodado pela claridade. O papel amarelado do sermão que nunca houve jaz entre seus pés. Com dificuldade, ele se abaixa e pega a folha semi-dobrada. Puxa a bengala de cima do banco e se ergue.
Arrastando com dificuldade a perna seca, caminha pela nave, olha o piso e os bancos: nem um grão!
Sai.
Escrito por Krenak às 22h34
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