Blog do Conto
 

Cena 1

Umberto Krenak

Pousa sobre um pé. Outro pé. Aparece; desaparece. Pernas delicadas movem-se com destreza entre os extremos da marquise. Aproxima-se da borda fingindo cair e gargalha ao ver os rostos iluminados. Mozart. Nem sequer desconfia. O som que vem da loja de discos faz vibrar o piso. Nas mãos, uma bola de papel encharcado pela chuva, que castiga há dias. Estende o braço, cabeça altiva. Já quis ser bailarina. Palma aberta, a bola acinzentada passeia quase imóvel. O que é isso?! Dançasse na calçada, ninguém a olharia. Pega essa diaba! Sob a chuva fina, rebrilha a pele negra. Cuidado! Ela gira. Uma escada! Tonta. Os prédios rodopiam. O homem sobe, aproxima-se. Me dá! Não, é minha. É uma bomba? Ela ri. Braços que abraçam sem carinho machucam-lhe o corpo adolescente. Rola. Diante da multidão em fuga, a bola, a bola. Cai. A bola, a bola. Na superfície fria do asfalto vai se desmanchando aos poucos.



Escrito por Krenak às 13h47
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A GALERIA

 

Umberto Krenak

 

A estrada era longa e sinuosa: à direita um penhasco projetado sobre o mar; do outro lado, a montanha escarpada, tingida de tons vermelhos. Ele fechou os olhos e imaginou-se aquele traço negro quase imperceptível sobre o mirante. Sentiu o vento roçando a sua nuca, um arrepio. Parece Monte Carlo, não? A voz aveludada dirigia-se ao moço vestido de preto que se espremia entre duas gordas senhoras. É, parece sim. Você já esteve lá?, perguntou o rapaz. Sob os holofotes, os olhos daquela loira eram duas esmeraldas quase transparentes. Ela desviou o olhar, e ele teve a impressão de estar sendo observado há muito. Ah, o filme com a Grace Kelly, qual era mesmo o nome? Ladrão de Casaca, é isso? Um minuto de reflexão e ela desaparecera. O lugar estava lotado, as pessoas se acotovelando para ver as obras. O moço de preto também sumira. Que mulher!...Voltou sua atenção novamente para a pintura. A única coisa que lhe vinha à mente, no entanto, era a silhueta incompleta, aqueles olhos felinos, os delicados sapatos de salto. Procurou-a desesperadamente no turbilhão da galeria, uma floresta de divisórias, perscrutou todos os vãos. Terá saído? Talvez no Café do primeiro piso.Muita gente vem à galeria pelo Café. Não, não estava lá. Voltou ao segundo andar e exaustivamente vasculhou cada canto, cada pedaço do salão. Às vezes se entusiasmava, o coração descompassado. Nada! Desolação. No fim da noite voltou ao quadro do penhasco e imaginou-se novamente. Embaixo o mar, domesticado pela distância; o vento reconfortante sobre o rosto. Olhou para o chão, algo brilhava, abaixou-se, um anel, olhou em volta: ninguém, guardou-o no bolso da casaca. A mesma jóia que vira no anular.  Não, não ia ser entregue nos perdidos e achados. Foi um dos últimos a sair do prédio. A noite pedia companhia mas estava exausto. Já em casa deitou, não pegou no sono. A recorrente imagem do penhasco, da mulher e de si mesmo, um ponto negro na estrada sinuosa. Foi para o computador e dormiu sobre o teclado. Domingo: tomou banho, visitou  parentes; à noite, voltou à exposição. Está mais cheio. Com muito custo aproximou-se do quadro. Lembrava-se dos sapatos. Olhou em volta, vasculhou os pés por trás dos biombos, simulou situações, seguiu pegadas. Inútil! Andou a esmo até bem tarde. A mostra fica até que dia?, perguntou ao rapaz da cafeteria. Hoje é o último, não é Anita? É sim, respondeu a moça, surgindo na portinhola atrás da prateleira de bebidas. Sua mulher? Perguntou baixo ao barman. Não, minha ajudante. Posso falar com ela? Mas claro. Anita! Pareceu-lhe familar, mas precisava ver os pés. A moça surgiu ao fundo e veio requebrando enquanto afrouxava o laço do avental. Não, não era. Não era!  O que foi? Nada, moça, desculpe. Voltou ao salão e continuou a caçada. Ouviu passos ligeiros do lado oposto do stand às suas costas, sapatos de mulher, virou-se,  salto agulha, dourados, seguiu-os pela longa divisória, caminhando no mesmo ritmo, o coração aos pulos. Antes do final ela virou à esquerda. Ele também. Parada. Parou. Silêncio. A ala vazia. Sós. Ela se abaixou e ele pôde ver, por baixo da folha de madeira, as delicadas mãos remexendo entre restos de programa rasgados, espalhados num canto. Resistiu à vontade de abordá-la ali, ainda do outro lado do biombo. Apressou o passo. Fez a volta e ela ainda agachada, de costas. Ele se aproximou e tocou seu ombro. É isso o que procura? Tirou o anel do bolso. Com ar de surpresa, ela abriu um sorriso iluminado. Eu ia entregar ontem ainda, mas não te achei. Ah, foi? Agora estavam os dois de pé, próximos, tão próximos... os corpos envoltos numa nuvem de calor. A atração inevitável, tudo o mais ficando distante. As bocas se colaram, os corpos arderam e as mãos se entrelaçaram como hera. Ele a puxou para um canto escuro e ali, atrás de pesada cortina, transaram apressadamente. Ela lhe deu um beijo e saiu. Nunca mais se viram.

 



Escrito por Krenak às 15h09
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