Blog do Conto
 

A RESSURREIÇÃO

Umberto Krenak

O corpo que via entre lençóis não parecia o de seu filho: a face avultada, uma sonda deformando a narina, a boca semi-aberta, um tubo... Cabelos de pontas amareladas lembraram-lhe páginas de um livro exposto à corrosão do tempo. Quando pensava nele sempre lhe ocorria a imagem do menino inquieto de cabelos negros e faces rosadas; das pequenas mãos que investigavam tudo e que um dia apontaram curiosas para a tatuagem no seu braço. Sempre lhe aparecia carregado de infância. Circundou a cabeceira para ver melhor o rosto. Ele sabia o quanto se afastara família. Mas, o que poderia ter feito? Trabalhara duro nos últimos quinze anos. Afinal, não ganhara a diretoria-geral de mão beijada. Olhou para o menino e percebeu apenas a excursão passiva do tórax. Fez o que pôde por ele - melhores colégios, melhores brinquedos, melhor vizinhança. Em volta do leito, sondas, acessos venosos e monitores com traçados indecifráveis. Moravam sob o mesmo teto e, se não conversavam há muito é porque eram diferentes, muito diferentes. Achava o diálogo com adolescentes uma coisa impossível. Afastou os equipos que cobriam o corpo e viu algo que passara despercebido todos aqueles anos. A aparente estabilidade desabara naquela maldita noite em que recebeu a notícia do acidente - o filho drogado, um hematoma cerebral. Desde então, atropelado pelos dias, vivia um pesadelo. Sobre a pele pálida do braço, emoldurada por manchas purpúreas, a tatuagem de um dragão vermelho de olhos desproporcionais. “É o meu signo no horóscopo chinês” – lembrou-se do que disse ao menino ao ser inquirido sobre o imenso tigre tatuado em seu próprio braço. E ele que pensava não terem nada em comum a não ser o sangue. Olhou novamente os monitores - números e traçados que não lhe diziam nada. Se ao menos pudesse traduzir algum resto de esperança...Em quinze meses, incontáveis paradas cardíacas. Não era justo reanimarem seu filho para deixá-lo naquele estado vegetativo, sem expectativa de melhora. Tocou as mãos frias do rapaz. Tomara a decisão dois dias antes. Com movimentos bruscos, desconectou o respirador e arrancou os equipos de soro. Mas antes que se desse conta o alarme soou. E a sala foi repentinamente invadida por uma multidão de homens e mulheres de jalecos brancos, empunhando seringas e aparelhos estranhos, que se aglomeraram em volta do garoto e, apesar de seus gritos de protesto, como discípulos de um Cristo às avessas, ressuscitaram-no uma vez mais.



Escrito por Krenak às 20h43
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