Blog do Conto
 

Louca por cinema

 

Umberto Krenak

 

Uma coceirinha entre as pernas. Quando levou a mão, teve de conter o grito. Os fios do bigode eram espessos e perfuravam a calcinha. Olhou para os lados: as duas primas comiam pipoca, olhos vidrados na tela. Filme de ação, cinema lotado, o ar quente fazia subir o vapor do sexo, impregnando-lhe as narinas. Sentiu vergonha, um misto de temor e desejo. A respiração tornara-se ofegante e a boca, um deserto.

 

Agora o bigode roçava a face interna das coxas, ferindo a pele úmida.  Músculos contraíam a vagina sem que ela pudesse controlá-los. Estava perdida, traída pelo próprio corpo.

 

Tomada de coragem, apalpou a cabeça camuflada entre suas coxas. Era comprida, com fios escassos na nuca. Ninguém mais percebeu; ou talvez fingissem não ver aquele vulto que teimava em permanecer impassível diante dela. Escancarou as pernas como que dizendo: vai, faz o que deve ser feito, sou uma piranha, uma piranha de cinema - riu de si mesma, riu de todos aqueles idiotas.

 

Um segredo. Secretíssimo! Ninguém saberia que um anão havia cheirado a sua xana. Mas era bom, e por ser escondido, melhor ainda. Ah, agora sim... Percebeu uma coisa fria afastando a calcinha da virilha. A língua serpeava procurando a vulva; os lábios, coroados de cabelos, como finas esporas, machucavam levemente os montículos do sexo. A serpente penetrou macia e se alojou o mais fundo que pôde. Ela gemeu, cobriu aquilo com a saia e apertou a cabeçorra contra a pube. Quis gritar, gemer, falar bobagens. A língua se movia docemente, prolongando-lhe a agonia, roçando o clitóris lenta e insistente. Viu as primas, hipnotizadas pela trama. Gritaria?

 

Uma pressão sobre as coxas, a língua saiu e entrou novamente, machucando um pouco. Não, não era língua. Era um pau imenso, uma coisa grossa e comprida. Levou a mão ao sexo e quase não conseguiu tocar o membro que arreganhava os pequenos lábios num sorriso de espanto. Aplacou os baques surdos da pube, o arranhar dos pentelhos; sorveu o resfolegar da boca junto ao seu umbigo, até que sentiu o vergalhão inchar, dilatar sucessivamente dentro de si em espasmos encadeados, músculos vaginais enlouquecidos, um espocar de luzes.

 

Quando relaxaram estava largada, um pano de chão. Nunca uma transa assim, com nenhum homem. Afinal conhecera o nada. Tornara-se um nada. Um anão, quem diria? Quem diria?!

 

Quando voltou a si as luzes estavam acesas e as primas a chamavam. Disseram-lhe que tivera uma convulsão e pareciam assustadas.

 

Desde então ela vai ao cinema todos os dias.



Escrito por Krenak às 22h35
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