Blog do Conto
 

MÃOS DE BORRACHA

 

Umberto Krenak

 

- Moço...

 

O velho olhou para baixo: um garoto puxava-o pela barra da calça. Aparentava cinco ou seis anos. No rostinho negro, por baixo das camadas de branco e amarelo, destacavam-se olhos brilhantes que pareciam suplicar na precária claridade.

 

- Moço...eu tô com fome!

 

Dez da noite, frio; o garoto em mangas de camisa causou-lhe pena.

 

- Está sozinho?

 

O pequeno balançou a cabeça afirmativamente.

 

 O velho se ajoelhou, depositou sobre a calçada o saco de latinhas, inclinou-se ligeiramente para diante, indicando com o queixo os três biscoitos de maisena no bolso da camisa. O garoto sorriu e pegou um.

 

- Pegue todos, pegue!

 

O menino encheu a mão e enfiou tudo na boca.

 

O velho estava visivelmente cansado. Fitou os olhos do garoto:

 

- É perigoso por essas bandas, filho. Você não é daqui, é?

 

O garoto meneou a cabeça.

 

- Onde você mora?

 

O menino ainda mastigava.

 

- Se quiser pode vir comigo – continuou o velho -; amanhã você vai pra casa... Eu mesmo fiz minha casa, sabia? Com esses cotos de borracha que você vê – esticou os braços, mostrando as próteses, que substituiam as mãos perdidas numa laminação – é barraco de pobre, mas está quentinho.

 

Foi só então que o velho percebeu que, embora o pequeno tivesse a estatura de uma criança de cinco anos, os olhos não eram de um garoto.

 

- Não tenho casa.

 

O velho olhou para o chão, pensativo, cofiou a barba rala.

 

- Se quiser pode até morar comigo. Vê – mostrou novamente os artefatos de borracha – tenho muita dificuldade pra empacotar as latinhas. Poderia me ajudar. Dividiríamos os lucros.

 

O menino sorriu.  (continua...)



Escrito por Krenak às 10h34
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**************

 

Maneco esperava Miúdo do outro lado da rua. Moleza: era chegar no barraco do otário e limpar tudo depois que ele se deitasse; com aquelas mãos de borracha, não conseguiria fazer nadinha.

 

No entanto algo aconteceu com o garoto. Nunca alguém o havia chamado de filho, nem lhe oferecido a própria casa. E isso chacoalhou todos os planos de Miúdo; ele resolveu não prejudicar o velho. Assim que chegou à casa, deu um jeito de ir ter com Maneco.

 

- Qualé, Miúdo, você não vai amarelar, vai?

 

- Deixa o coroa pra lá, Maneco, é um pobre que nem a gente.

 

- Cê tá doido, véi? Assinou, não tem retorno. Vamo limpar o barraco e você não vai cair fora.

 

Maneco deu um salto e se pôs a caminhar na direção do barraco.

 

- Pára aí, caraio! – gritou Miúdo.

 

Maneco não deu ouvidos.

 

- Pára seu fi duma égua. Pára ou eu te meto bala.

 

- Mete nada, cagão. Você não é de nada, Miúdo.

 

***************

 

- Como é seu nome mesmo, filho?

 

- José Carlos, mas me chamam de Miúdo.

 

- Ouvi um barulho, tiros. Fiquei preocupado com você lá fora.

 

- Preocupa não. Tiro tem pra todo lado, moço.

 



Escrito por Krenak às 10h33
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