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MÃOS DE BORRACHA
Umberto Krenak
- Moço...
O velho olhou para baixo: um garoto puxava-o pela barra da calça. Aparentava cinco ou seis anos. No rostinho negro, por baixo das camadas de branco e amarelo, destacavam-se olhos brilhantes que pareciam suplicar na precária claridade.
- Moço...eu tô com fome!
Dez da noite, frio; o garoto em mangas de camisa causou-lhe pena.
- Está sozinho?
O pequeno balançou a cabeça afirmativamente.
O velho se ajoelhou, depositou sobre a calçada o saco de latinhas, inclinou-se ligeiramente para diante, indicando com o queixo os três biscoitos de maisena no bolso da camisa. O garoto sorriu e pegou um.
- Pegue todos, pegue!
O menino encheu a mão e enfiou tudo na boca.
O velho estava visivelmente cansado. Fitou os olhos do garoto:
- É perigoso por essas bandas, filho. Você não é daqui, é?
O garoto meneou a cabeça.
- Onde você mora?
O menino ainda mastigava.
- Se quiser pode vir comigo – continuou o velho -; amanhã você vai pra casa... Eu mesmo fiz minha casa, sabia? Com esses cotos de borracha que você vê – esticou os braços, mostrando as próteses, que substituiam as mãos perdidas numa laminação – é barraco de pobre, mas está quentinho.
Foi só então que o velho percebeu que, embora o pequeno tivesse a estatura de uma criança de cinco anos, os olhos não eram de um garoto.
- Não tenho casa.
O velho olhou para o chão, pensativo, cofiou a barba rala.
- Se quiser pode até morar comigo. Vê – mostrou novamente os artefatos de borracha – tenho muita dificuldade pra empacotar as latinhas. Poderia me ajudar. Dividiríamos os lucros.
O menino sorriu. (continua...)
Escrito por Krenak às 10h34
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