O DESPERTAR
Umberto Krenak
Acordou. Tudo era treva e silêncio.
Chacoalhou a cabeça: a noite, Maria, o filho, o rio, a barca, os hinos, a estação, o banheiro, a dor...mais nada.
O pescoço ainda doía.
Por certo não estava na velha estação - não havia o cantar dos crentes, nem conversas de passageiros.
Frio.
De repente, gritos finos; agudos e prolongados.
Arrastou o corpo para detrás de uma pedra.
Novos gritos; agora um coro extraordinário.
Acima, o alvoroço surdo, ruflar de asas, ventania.
Medo.
Da entrada da caverna não distinguiu se era noite ou dia.
O corpo estranho...O barulho, guinchos...
Tomado de fúria, gritou, e gritou, e gritou.
Exausto, por fim, compreendeu.
Então, de um salto, ergueu-se no ar.
E voou com seus iguais.
Escrito por Krenak às 17h15
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