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Astronauta
Umberto Krenak
Os olhos que miram a noite são os mesmo olhos do menino. Entre eles, o tempo.
- São tantas, mãe.
- Milhões e milhões.
- Milhões? Isto é muito, né?
- É tanto que nem dá nem pra contar.
Hoje ele sabe que são incontáveis. Mas é preciso a solidão para vê-las. No corre-corre da cidade, não fazem parte do cenário.
Estrelas.
Os braços da mulher envolvem o corpo franzino do garoto de oito anos, protegendo-o do frio invernal que entra pela janela escancarada.
- Miguel, venha se deitar. Amanhã partimos cedo.
- Espere um pouco, Vera. Chega aqui. Olha como o céu está limpinho.
A mulher se levanta, aproxima-se, beija-lhe a boca.
- Nossa! Há muito não vejo um céu tão lindo!
Abraçam-se.
- O que você quer ser quando crescer?
- Astronauta.
O homem ri.
- Imagine só! Astronauta!
- Quem? Você?
- Sim, meu bem. Já pensou? Um sonho do qual nem me lembrava mais.
- Toda vez que você vem aqui na roça fica meio esquisito.
Ele não saberia explicar, é como se aquela casa fosse uma arca que guardasse tudo o que ele foi, como se ali vivessem todos os Miguéis e não apenas aquele homem de sessenta anos, advogado, casado há trinta, cinco filhos.
- Agora vem, querido. A viagem é cansativa e você não é mais um garoto.
Puxa-o pelo braço e fecha a janela.
Escuro e silêncio.
Ele não sabe se tem medo.
Escrito por Krenak às 06h26
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