Blog do Conto
 

 
VIVER É UMA QUESTÃO DE SORTE
 
Umberto Krenak
 
- Porra! Você não cansa de ficar na frente desta merda de quadro, Val?
 
- Não enche!
 
Zuê tava me dando nos nervos, implicando só porque eu gostava daquela 
pintura. Não lembro quem colocou aquilo lá. Pensei na Jane, mas ela não 
andava mais com a gente, tinha abandonado o tráfico há um tempão e se 
metido com a galera da baixada; já foi desta pra melhor, a pobre.
 
A não ser pelas manchas de dedos num dos cantos, a pintura tava bem 
conservada - a rua vazia, o bar do fim de noite; e aquele homem de chapéu 
dando as costas pro mundo. Não sei por quê, mas sempre imaginei meu pai 
usando chapéu. Mamãe nunca disse nada. Quando eu perguntava, ela falava 
que eu esquecesse, que eu não tinha pai, meu pai era Deus do céu, 
bastava ver a certidão, estava lá, escrito: Valdivio de Jesus Pereira. Eu 
era de Jesus. E pronto!
 
Mas desde pequeno, eu sempre soube que tinha um pai e toda vez que 
olhava o moço naquele quadro tentava imaginar seu rosto.
 
- Neguinho foi apagado, Val. Ontem – Zuê tava sentado no chão, fazendo 
uma carreirinha.
 
- Porra! O Neguinho? O cara só queria ganhar o dele. Não se metia com 
ninguém...
 
- É. Tão dizendo que o foi o Robinho Sem-braço. Você sabe – deu uma 
fungada – o cara é metidão, quer tomar a boca.
 
- Olha o que eu guardo pra ele – saquei minha pistola e dei um tiro na 
perna da mesa. Zuê, que já tava alto, gargalhou pra caralho. E eu 
junto.
 
Dei mais um tapa. Na minha frente, o quadro. Aquele rosto parecia 
perdido para sempre. Tudo bem, no dia seguinte ia completar 17 e encher a 
cara. Até esborrachar. Se minha mãezinha me visse, coitada! Morreu sem 
saber por quê. Um dia em que a polícia entrou atirando pra todo lado. E 
eu nem trabalhava na boca ainda. Depois caí na vida, matei quatro 
polícias, sem dó. Atirei na cabeça! Raça ruim tem é que morrer mesmo!
 
- Olha o que eu vou fazer com essa porra de quadro – quando dei por 
mim, Zuê tinha levantado e tava com uma faquinha na mão. Com um monte de 
estucadas, deixou a pintura esbagaçada. – Bandido não pode ter essas 
frescuras no barraco! – e gargalhou alto.
 
- Você não devia ter feito isso, cara!
 
- Qualé, Val? Este quadro era meu. Tudo que tem aqui neste barraco é 
meu.
 
- Você sabia que eu gostava dele, porra!
 
- Vai chorar? Pode chorar, nenêzão – e gargalhava.
 
- Caralho, cara. Você sabe o que está fazendo?
 
Zuê tava muito doidão, tinha entupido o rabo de pó e agora estava um 
trapo, deitado no chão, na minha frente, vermelho de tanto rir.
 
Eu fiquei puto, puto, senti o sangue me esquentando o rosto. Cara 
sacana! Peguei a arma e apontei pra cabeça. Ele era um trapo, um lixo. Nem 
percebeu que tava na minha mira e que quase puxei o gatilho, quase...

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Pintura: Edward Hopper - Nighthawks



Escrito por Krenak às 14h21
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