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Passagem
Umberto Krenak
A Natasha Richardson
Um cigarro e a mão retorna; o cotovelo pousa sobre a mesa. Mais um copo de Martini, Senhorita? Sim, por favor. A fumaça à contraluz é uma cortina; casais volteiam no salão; a orquestra toca um bolero. Está livre? Mas claro. Ela se calça. O homem é jovem e recende a perfume fino. A nuvem de fumo faz tudo parecer um sonho. Não sei dançar muito bem, ele diz. Importa-se? Antes que venha a resposta, toma-o pela cintura, invertendo os papéis. É fácil, dois-pra-lá, dois-pra-cá, dois-pra-lá... Os primeiros movimentos são atravancados, arrancos de engrenagem esquecida. A mão que guia o homem apalpa-lhe a musculatura arrojada da cintura. Marinheiro? Não, a palma é delicada, não é gente do mar; bem, até pode ser; pode ser qualquer coisa nesta cidade imprevisível. Aos trinta e cinco anos, a guerra levou-lhe os bens e o marido; fê-la exilada; restou uma filha a quem ama mais que a si mesma.
O corpo do parceiro se solta. Agora você já sabe. Vamos trocar. Segura aqui. A mão direita pousada um pouco acima da cintura: – Guia-me! Vê como é? Faça do seu jeito, você comanda, me leve pra onde quiser. Dois ou três casais os acompanham. A pegada é firme; os dedos deslizam pela seda fina e às vezes tocam a pele macia que se insinua pela cava do vestido. Muito bom! Aprendeu rápido! Movimentos se ampliam, pernas se entrelaçam cheias de subentendidos, respiros sincronizados obedecem ao ritmo da música na noite quente de Xangai. O mundo pesa sobre suas cabeças, mas eles reduzem o mundo ao som desafinado da orquestra improvisada; mãos, pés, cabeça, são todos cúmplices daquele fio de sentimento, daquela coisa indefinida, um quase amor-comprado, a sensação de continuarem vivos por algumas horas e serem mesmo capazes de conduzir o próprio destino.
Mas a madrugada não demora, o sol já se ameaça por entre os pingos da chuva escassa que se vê pela janela. A orquestra finaliza. Pena, pena mesmo! Thank you, Miss, qual é o seu nome? Natasha, o seu? Afastam-se. Teria no máximo vinte e cinco. Só então ela vê a cicatriz que corta o rosto do parceiro, a boca interrompida, o globo opalescente na órbita esquerda. Michael. Mas ela não se assusta, continuaria abraçada a ele indefinidamente. Apareça sempre, você dança bem, muito bem. Despedem-se com gestos inconclusos, a orquestra reúne os instrumentos, ela põe no bolso o cartão cor-de-rosa perfurado, ele veste a capa, ajeita o chapéu e sai sem olhar para trás.
A mão alisa, delicada, a janela coberta de neblina, enquanto os olhos acompanham o vulto negro que desaparece na esquina da rua Tien Tsin.
Escrito por Krenak às 23h58
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